EQUÍVOCO E CONTROVÉRSIA NA REPERCUSSÃO
DA CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA
21 de fevereiro de 1959. O romancista Lúcio Cardoso registra a seguinte anotação em seu Diário:
Um jornal publica hoje a capa do meu livro a sair no mês próximo. Dois anos e, mesmo assim, menos tempo do que levei para publicar O enfeitiçado, que durante tanto tempo rolou em minhas gavetas. Mas, apesar disto, é o suficiente para que eu perceba os defeitos da Crônica e avalie os lados por onde envelheceu. Isto me consola, imaginando que posso fazer melhor. Mas assalta-me uma grande melancolia, imaginando que também este tombará no silêncio e no desinteresse e que, independente de seus defeitos, que talvez só eu conheça, poderia ser uma obra-prima que encontraria a mesma repulsa e a mesma prevenção que vêm encontrando todos os meus outros livros...
Mas é de cabeça erguida que eu me preparo para suportar este desdém. [1]
O comentário reflete o estado de espírito do escritor mineiro às vésperas do lançamento de sua criação mais famosa, o romance Crônica da casa assassinada, editado pela José Olympio em 1959. O desalento, que vem mesclado à melancolia, justifica-se pelo receio de que o livro não seja bem recebido em nosso meio literário, o que significaria a repetição de um fato várias vezes vivenciado pelo autor no decorrer de sua carreira.
Dono de um temperamento arrebatado, Lúcio Cardoso revelou ao longo de toda sua trajetória uma facilidade incomum para se envolver em polêmicas e controvérsias. Tendo feito sua estréia na literatura em 1934 e publicado a maior parte de seus romances e novelas durante os efervescentes anos 30 e 40, o ficcionista acabou por ter a recepção de sua obra condicionada às grandes questões que agitaram nosso meio literário naquele período. Naqueles anos marcados por acontecimentos tão relevantes como a Revolução de 30, a Intentona Comunista, o Estado Novo de Vargas e a Segunda Grande Guerra, suas idéias sobre o papel do escritor e a finalidade da literatura não eram compartilhadas pela maioria de seus colegas, que pregavam que a arte não podia se furtar à sua função política. Defendendo sempre uma posição contrária a esta e não poupando críticas à produção de autores como Jorge Amado, José Lins do Rego e outros, Lúcio inscrevia-se fora da corrente preponderante e é lógico que sua obra sofreu as conseqüências deste seu posicionamento.
Julgamentos tendenciosos, silêncio e indiferença marcaram a recepção de livros significativos que publicou nos anos 40. Daí sua apreensão de que o mesmo pudesse ocorrer com a Crônica da casa assassinada, em cuja elaboração havia empregado um tempo, um cuidado e uma atenção que não dedicara aos quatro romances e sete novelas que havia lançado até aquele momento.
Narrando a história de um incesto ocorrido no seio de uma tradicional família mineira, o escritor havia concebido um romance estruturalmente complexo através da adoção do foco narrativo múltiplo e de uma grande fragmentação temporal. Manifestando, ainda, uma extrema preocupação com o resultado final que desejava atingir na obra, Lúcio escreveu-a e reescreveu-a sucessivas vezes, conforme pode ser comprovado pela leitura das várias versões que integram a sua edição crítica.
Esta, que foi publicada em 1991 como volume 18 da prestigiosa coleção Arquivos subvencionada pela UNESCO, permite verificar não apenas que o autor tinha em mente um projeto ambicioso, como também que não havia poupado esforços para vê-lo realizado a contento. Tal empenho explica-se pela sua convicção de que a Crônica da casa assassinada daria início a uma nova fase em sua carreira, inaugurando, por assim dizer, o que considerava sua obra definitiva.
Tal fato não era evidente na ocasião em que o romance chegou às estantes das livrarias, contudo, o que não impediu que conquistasse de imediato a atenção de nosso meio literário. Ao contrário do esperado, isto não se deu, em um primeiro momento, em virtude de seu caráter inovador, mas sim devido a um artigo que o crítico pernambucano Olívio Montenegro escreveu a seu respeito. Incomodado com as “cores bestiais” do drama que Lúcio criara, Montenegro o acusava de haver intencionalmente pretendido causar escândalo ao centrar o enredo em torno de um relacionamento incestuoso. A verdade, porém, é que o crítico se equivocava e muito em seu julgamento. No último capítulo do livro, de forma um pouco mirabolante e numa espécie de capitulação que lhe renderia uma série de críticas e censuras, o romancista havia desmentido o incesto em torno do qual todo o entrecho fora construído. Aparentemente sem ter chegado ao fim do volume, Montenegro desconsiderava o fato e afirmava:
No novo livro de Lúcio Cardoso o que imediatamente repugna é a sua imoralidade gratuita, de segunda mão, e para efeito literário. Estou quase a apostar que foi lendo Ma vie, o romance de Paul Léautaud, e onde este autor faz, com um cinismo feliz, a completa narração das suas relações incestuosas com a própria mãe, que ele se inspirou para a Crônica da casa assassinada. Uma má inspiração.[2]
Evidenciando, também, que sua irritação para com o livro era grande o suficiente a ponto de estender seus ataques à pessoa de Lúcio Cardoso, Montenegro aludia veladamente ao homossexualismo do escritor, ao asseverar que ele não havia sido capaz de criar personagens femininas convincentes na trama:
Os seus próprios personagens femininos, que, dado o caráter do drama, deviam ser os mais intensos, são, ao contrário, vagos, abstratos e contraditórios. Por onde vê-se que o autor da Casa assassinada não tem grande experiência de mulheres. E que fala delas pelo que leu mais do que pelo que deve à sua observação pessoal.[3]
Tomando conhecimento do agressivo artigo do crítico pernambucano, o romancista mineiro não esperou que fossem até ele para que expressasse sua opinião. Procurou José Condé, responsável pela coluna “Escritores e livros” do jornal Correio da Manhã, e declarou:
– Isto me surpreendeu e me divertiu ao mesmo tempo: meu velho amigo Olívio Montenegro deve estar implicando comigo, pois, se me acusa de descrever um incesto para efeito de literatura, nem sequer chegou a terminar o livro – porque incesto não há...[4]
Assegurando, em seguida, que Montenegro estava “pessimamente informado”, pois aproximara sua obra de um romance de Léautaud que não existia, o ficcionista, incapaz de controlar a sua já conhecida tendência à provocação, questionava:
– Que idade será atualmente a do meu prezado Olívio, para considerar assim tão ‘imoral’ (sic) relações normais entre um homem e uma mulher? Que coisa melancólica: é evidente que estamos muito longe da época em que ele louvava sem restrições as páginas mais cruas do romance Bangüê, de José Lins do Rego... [5]
Amigo pessoal de Lúcio e grande admirador de sua obra, o poeta Walmir Ayala também resolveu sair a campo em sua defesa. Entretanto, ao invés de redigir um texto desautorizando o julgamento do crítico pernambucano, teve uma idéia mais engenhosa e decidiu promover uma enquete com dez diferentes autores a respeito da suposta imoralidade do romance alvo da discussão. Manuel Bandeira, Octavio de Faria, Adonias Filho, Eneida, Armindo Pereira, Lêdo Ivo, Assis Brasil, Aníbal Machado, Paschoal Carlos Magno e Dinah Silveira de Queiroz foram os escritores e críticos que, nas edições dos dias 6 e 20 de junho do Correio da Manhã, responderam à questão: “Crônica da casa assassinada – um romance imoral?”
Valendo-se do depoimento dos autores mencionados, Ayala não apenas atraiu a atenção de um público maior para a mais recente criação do amigo, como logrou sobretudo demonstrar através do consenso das várias vozes que uma obra literária somente pode ser julgada a partir de critérios artísticos e nunca éticos ou morais. Pôde, além disso, ver ressaltada a importância do novo lançamento no conjunto da produção do escritor, uma vez que, em suas considerações, os entrevistados em geral haviam sublinhado a beleza, a densidade e a intensa carga poética que caracterizavam a Crônica da casa assassinada.
Longe de encerrar o debate a propósito do livro, a iniciativa de Walmir Ayala despertou o interesse de outros críticos por ele, de modo que não tardaram a surgir nos periódicos e suplementos literários da época mais artigos tratando de sua publicação. Como em muitos deles, porém, a ênfase recaísse sobre a legitimidade ou não das observações feitas por Olívio Montenegro, houve quem se mostrasse descontente com o tipo de recepção a que o romance vinha sendo submetido. Entre estes, encontrava-se Vitto Santos, que assim se pronunciou sobre a controvérsia iniciada por Montenegro:
Sendo um romance de Lúcio Cardoso, teria que ser obra corajosa mas honesta, onde os conflitos mais perturbadores não são utilizados apenas para escandalizar. As intenções do autor são outras, transcendentes. Dizem respeito à prospecção profunda dos abismos da alma. (...) Entretanto, parece que a discussão levantada pelo livro foi diversa. Para espanto dos que pensavam não haver mais ambiente para questões dessa natureza, procura-se saber se o romance de Lúcio Cardoso é ou não uma obra imoral.
Sobre o assunto já se escreveram artigos, já se deram entrevistas, a sério. Uns para condenar o incesto entre mãe e filho como elemento do drama, em torno do qual gira o enredo, outros para esclarecer que não é bem assim, pois no epílogo se revela, afinal, não serem parentes os amantes. Com que olhos, com que reflexões ou sentimentos leram o livro? [6]
E, mais abaixo, o crítico, que achara o romance fascinante e mais do que merecedor, portanto, de ter suas reais qualidades e falhas debatidas, completava:
Atribuir (...) a Lúcio Cardoso, por esse ou qualquer outro motivo, gratuidade no aproveitamento literário de amores aberrantes, chega a ser um despropósito. Não o admite a sua reconhecida probidade intelectual e o romance em causa, legítima obra de arte, é o maior desmentido à acusação. [7]
Com ele concordava Wilson Martins, que, em seu artigo sobre a Crônica da casa assassinada, talvez o mais lúcido de todos os que foram escritos sobre a obra na ocasião de seu lançamento, ponderou:
Evidentemente, os bons sentimentos nada têm a fazer em crítica literária e os que julgarem este romance através de critérios morais (do que o próprio autor parece não ter escapado) estarão cometendo o único erro irreparável e incidindo na maciça incompreensão que, se tivesse predominado na história da inteligência, teria impedido a existência de toda literatura. [8]
Acreditando que o romance concebido pelo autor mineiro não estava “longe de ser uma obra-prima”, Martins lamentava apenas que este houvesse cedido a um certo convencionalismo do qual absolutamente não dependia. Somente assim seria possível entender, na opinião do crítico, a decisão de Lúcio de desmentir no último capítulo a relação incestuosa entre Nina e André, os dois protagonistas. Ao esclarecer que ambos, na verdade, não constituíam mãe e filho, como se julgara até então, o ficcionista descia, “um pouco, da tragédia ao vaudeville”.[9]
Este mesmo aspecto foi levantado e exposto com maior ou menor propriedade em outras resenhas que se produziram sobre o livro no período e elas não foram poucas. Ao contrário de uma novela como Inácio, por exemplo, que Lúcio editou em 1944 e que mereceu no momento de sua publicação o mais absoluto silêncio da crítica, a Crônica da casa assassinada foi objeto de inúmeras avaliações nos suplementos literários dos jornais do Rio de Janeiro e São Paulo.
O fato de ser ele um dos três romances fundamentais de nossa literatura lançados nos anos 50 – os outros dois são, no meu entender, A menina morta de Cornélio Penna e Grande sertão: veredas de Guimarães Rosa – explica hoje que assim tenha sido. Não é fora de propósito concluir, no entanto, que Olívio Montenegro tenha exercido um papel decisivo para que isto ocorresse. Ainda que a contragosto, é inegável que o crítico favoreceu a divulgação da obra, ao contribuir para que tantos olhos se voltassem para ela em decorrência de seu artigo contundente e equivocado.
[1] Lúcio CARDOSO. Diário completo. Rio de Janeiro : José Olympio/INL, 1970, p. 269.
[2] Olívio MONTENEGRO. Um romance imoral. Diário de Pernambuco, Recife, 26 abr. 1959. Este mesmo texto foi publicado em um jornal do Rio de Janeiro em 17 de maio, quando, então, alcançou repercussão no meio literário carioca.
[3] Ibidem.
[4] José CONDÉ. Lúcio Cardoso responde e ataca. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 abr. 1959.
[5]Ibidem.
[6] Vitto SANTOS. A casa assassinada. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 16 set. 1959.
[7] Ibidem.
[8] Wilson MARTINS. Um romance brasileiro. O Estado de S. Paulo. Suplemento Literário, São Paulo, 1 ago. 1959.
[9] Ibidem.